Executando o principal objetivo da viagem ao Chile. (Setembro, 2006)
"A vida não é medida pelo número de vezes que respiramos, mas pelos lugares e momentos capazes de tirar nosso folego. "
(P. Schultz, 1000 lugares para conhecer antes de morrer, Sextante, 2006). Necessário resolução mínima 1024 x 768 pixels

Escrito por
Edilson V. Benvenutti

Hermoso Chile - Ascensão ao vulcão Licancabur
 
O vulcão Licancabur é uma imponente montanha localizada exatamente na linha divisória do Chile com o extremo sul da Bolívia. Seu cume (22º49'58s / 67º53'00w) está a 5930 m acima do nível do mar.
A imagem ao lado foi obtida a partir da cidade de San Pedro de Atacama,  na altitude de 2300 m. O cume está a 35 km das lentes.
Do lado boliviano temos o parque nacional Eduardo Avaroa.  Na foto, Licancabur e laguna verde, Bolívia.
No quinto dia em San Pedro, consegui encontrar um guia que estivesse disposto a me levar ao cume do Licancabur, a partir da Bolívia. Alguém que acreditou que eu estava fisicamente preparado e que não tentou me convencer a subir uma montanha menor, como o vulcão Lascar.
Na tarde de 17 de setembro, partimos em direção à Bolívia. Passamos a noite no refúgio da laguna Branca, administrado por um boliviano chamado Macario, que trabalha como guia dessa montanha desde 1995 (o da direita na foto). O local é bastante precário, não há luz, nem comida e também não são fornecidos cobertores, portanto não dá pra esquecer o saco de dormir. Por aqui só passam pessoas que tem algum interesse no vulcão. Pouco antes de dormir tive a oportunidade conversar com um chileno que apesar de já ter feito Ojos del Salado, que é mais alto, havia fracassado na tentativa de alcançar o cume do Licancabur.
Macairo é um guia que passa segurança e inspira muita confiança. Essa foi sua ascensão de nº 389. Além disso, cobra muito menos que os guias e agências do Chile. Portanto, se quiser subir esse vulcão, dispensando aqueles acessórios de turistas, como oxigênio ou celular de satélite, contrate diretamente Macario. Basta ir até o posto de fronteira da Bolívia e perguntar por ele. Os policiais do posto boliviano o conhecem.
A imagem do pico do Licancabur, mostrada ao lado, foi obtida a partir da laguna Verde com zoom óptico 380 mm.
Como a ascensão pelo lado boliviano só é permitida na presença de um guia boliviano, as agências chilenas que cobram até 30 vezes mais caro, fazem a ascensão pelo lado chileno. Eu optei em fazer a ascensão pelo lado boliviano da montanha, pois além da ascensão ser menos hostil, a base chilena do vulcão é um campo minado, sequelas do governo de Pinochet.
A imagem ao lado foi obtida 6 dias antes da ascensão, a partir da ruta 27, que liga San Pedro de Atacama a cidade argentina de Salta. O cume da montanha está a 15 km das lentes.
No dia 18 de setembro acordamos muito cedo e às 4h30min iniciamos nossa marcha a partir de 4300 m. A imagem do amanhecer foi obtida quando estávamos em torno de 4900 m. Mais abaixo, em torno de 4700 m, já haviamos passado por um grupo de bolivianos, sendo que uma menina estava com hipotermia. Deixamos um par de meias e seguimos.
A 5300 m, em um refúgio de rochas, encontramos um alpinista chileno com sintomas críticos de mal de alturas.
A foto ao lado foi obtida a 5400 m.
Mais fotos do amanhecer.
Imagem da laguna Verde, situada na base boliviana da montanha.
A 5500 m é possível ver a lona amarela do refúgio onde está o alpinista chileno, 200 m abaixo.
A 5600 m fechou o tempo e a temperatura caiu drasticamente.
Na imagem ao lado, o vizinho Sairecabur.
Imagem obtida a 5700 m.
Marca na rocha indicando a altitude de 5714 m. Nesse ponto da marcha, hesitei. Sem comida e quase sem água, pensei que o melhor seria regressar. Como estava exaurido, acredito que a oxigenação se concentrava nos órgãos e obviamente nas pernas. Já nos braços, não havia circulação e, mesmo usando duas luvas, os dedos das mãos ficaram escuros e começaram a congelar.
Os guias me assistiram. Tomaram minha mochila e me deram coca pra mascar. Nessa altitude a coca fez diferença. Parece que o coração havia voltado a bater. Bueno, acho que vai dar pra continuar.
É normal sentir boca seca e eventualmente um pouco de náusea. Entretanto, se os sintomas vierem acompanhados de tontura, é necessário diminuir a frequência dos passos, pois está faltando pulmão.
Chegamos ao cume às 10h30min e, repetindo o ritual dos guias, coloquei uma pedra no marco do ponto mais alto da montanha. Foram 6 h de caminhada, bem mais rápido que o recomendado (8-10 h).
Na imagem, os guias e seu tributo à montanha.
Temperatura -20 ºC, vento de no mínimo 60 km/h. Cravei a bandeira colorada que o Cirilo guardou da grande final da Libertadores.
A adrenalina e a felicidade de alcançar o cume fazem com que o cansaço desapareça provisoriamente. Durante 15 min eu tinha a impressão que seria capaz de subir mais 500 m.
Na foto, Macairo e eu.
Olha eu ai, brigando com o vento.
Imagem do lago da cratera do vulcão. Considerado o lago mais alto do mundo.
O lago tem aproximadamente 40 m de diâmetro.
Poderia até ter caminhado sobre o lago, mas como desconhecia a espessura do gelo e ele também não parecia muito confiável, não arrisquei. Banho gelado, nem pensar.
A foto que saiu na edição da ZH de 04/10/2006.
Por alguns instantes o tempo se abriu. Foi possível fotografar o vizinho Juriques, cujo cume está 200 m mais abaixo. Parece que ambos estão na mesma altitude, mas é só impressão, pois estamos a 5800 m de distância, em linha reta.
Depois de certo tempo, a adrenalina baixa e você começa a congelar. Está na hora de descer.
Parece que a montanha se tornou mais íngreme. Entretanto a sensação térmica melhorou. Na descida o vento não foi tão forte quanto no cume.
Em torno dos 5000 m houve uma elevação brusca de temperatura. Agora o termômetro passou a marcar a -2 ºC. Apesar do cansaço, sente-se um grande alívio, pois eliminamos o risco de hipotermia. O objetivo agora é água e comida.
Na imagem, as ruínas de uma cidade Inca localizada na base do vulcão.
Foram 3 horas de descida. Na base, em um pequeno acampamento, fomos cumprimentados por dois argentinos que provavelmente vão tentar no dia seguinte. Eu, desidratado, com febre, com dor de cabeça, mas acima de tudo realizado e feliz.
Na foto, a montanha no dia da ascensão, durante o retorno a San Pedro.





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