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O vulcão Licancabur
é uma imponente montanha localizada exatamente na
linha divisória do Chile com o extremo sul da
Bolívia. Seu cume (22º49'58s / 67º53'00w) está a
5930 m acima do nível do mar.
A imagem ao lado
foi obtida a partir da cidade de San Pedro de
Atacama,
na altitude de 2300 m.
O cume está a 35 km das lentes.
No quinto dia em San
Pedro, consegui encontrar um guia que estivesse
disposto a me levar ao cume do Licancabur, a partir
da Bolívia. Alguém que acreditou que eu estava
fisicamente preparado e que não tentou me convencer
a subir uma montanha menor, como o vulcão Lascar.
Na tarde de 17 de
setembro, partimos em direção à Bolívia. Passamos a
noite no refúgio da laguna Branca, administrado por
um boliviano chamado Macario, que trabalha como guia
dessa montanha desde 1995 (o da direita na foto). O
local é bastante precário, não há luz, nem comida e
também não são fornecidos cobertores, portanto não
dá pra esquecer o saco de dormir. Por aqui só passam
pessoas que tem algum interesse no vulcão. Pouco
antes de dormir tive a oportunidade conversar com um
chileno que apesar de já ter feito Ojos del Salado,
que é mais alto, havia fracassado na tentativa de
alcançar o cume do Licancabur.

Macairo é um guia
que passa segurança e inspira muita confiança. Essa
foi sua ascensão de nº 389. Além disso, cobra muito
menos que os guias e agências do Chile. Portanto, se
quiser subir esse vulcão, dispensando aqueles
acessórios de turistas, como oxigênio ou celular de
satélite, contrate diretamente Macario. Basta ir até
o posto de fronteira da Bolívia e perguntar por ele.
Os policiais do posto boliviano o conhecem.
A
imagem do pico do Licancabur, mostrada ao lado, foi
obtida a partir da laguna Verde com zoom óptico 380
mm.

Como a ascensão pelo
lado boliviano só é permitida na presença de um guia
boliviano, as agências chilenas que cobram até 30
vezes mais caro, fazem a ascensão pelo lado chileno.
Eu optei em fazer a ascensão pelo lado boliviano da
montanha, pois além da ascensão ser menos hostil, a
base chilena do vulcão é um campo minado, sequelas
do governo de Pinochet.
A imagem ao lado foi
obtida 6 dias antes da ascensão, a partir da ruta
27, que liga San Pedro de Atacama a cidade argentina
de Salta. O cume da montanha está a 15 km das
lentes.
No dia 18 de
setembro acordamos muito cedo e às 4h30min iniciamos
nossa marcha a partir de 4300 m. A imagem do
amanhecer foi obtida quando estávamos em torno de
4900 m. Mais abaixo, em torno de 4700 m, já haviamos
passado por um grupo de bolivianos, sendo que uma
menina estava com hipotermia. Deixamos um par de
meias e seguimos.
A 5300 m, em um
refúgio de rochas, encontramos um alpinista chileno
com sintomas críticos de mal de alturas.
A foto
ao lado foi obtida a 5400 m.
Mais fotos do
amanhecer.
Imagem da laguna
Verde, situada na base boliviana da montanha.
A 5500 m é possível
ver a lona amarela do refúgio onde está o alpinista
chileno, 200 m abaixo.
A 5600 m fechou o
tempo e a temperatura caiu drasticamente.
Na imagem ao lado, o
vizinho Sairecabur.
Imagem obtida a 5700
m.
Marca na rocha
indicando a altitude de 5714 m. Nesse ponto da
marcha, hesitei. Sem comida e quase sem água, pensei
que o melhor seria regressar. Como estava exaurido,
acredito que a oxigenação se concentrava nos órgãos
e obviamente nas pernas. Já nos braços, não havia
circulação e, mesmo usando duas luvas, os dedos das
mãos ficaram escuros e começaram a congelar.
Os guias me
assistiram. Tomaram minha mochila e me deram coca
pra mascar. Nessa altitude a coca fez diferença.
Parece que o coração havia voltado a bater. Bueno,
acho que vai dar pra continuar.
É normal sentir boca
seca e eventualmente um pouco de náusea. Entretanto,
se os sintomas vierem acompanhados de tontura, é
necessário diminuir a frequência dos passos, pois
está faltando pulmão.
Chegamos ao cume às
10h30min e, repetindo o ritual dos guias, coloquei
uma pedra no marco do ponto mais alto da montanha.
Foram 6 h de caminhada, bem mais rápido que o
recomendado (8-10 h).
Na imagem, os guias
e seu tributo à montanha.
Temperatura -20 ºC,
vento de no mínimo 60 km/h. Cravei a bandeira
colorada que o Cirilo guardou da grande final da
Libertadores.
A adrenalina e a
felicidade de alcançar o cume fazem com que o
cansaço desapareça provisoriamente. Durante 15 min
eu tinha a impressão que seria capaz de subir mais
500 m.
Na foto, Macairo e eu.
Olha eu ai, brigando
com o vento.
Imagem do lago da
cratera do vulcão. Considerado o lago mais alto do
mundo.
O lago tem
aproximadamente 40 m de diâmetro.
Poderia até ter
caminhado sobre o lago, mas como desconhecia a
espessura do gelo e ele também não parecia muito
confiável, não arrisquei. Banho gelado, nem pensar.
A foto que saiu na
edição da ZH de 04/10/2006.
Por alguns instantes
o tempo se abriu. Foi possível fotografar o vizinho
Juriques, cujo cume está 200 m mais abaixo. Parece
que ambos estão na mesma altitude, mas é só
impressão, pois estamos a 5800 m de distância, em
linha reta.
Depois de certo
tempo, a adrenalina baixa e você começa a congelar.
Está na hora de descer.
Parece que a
montanha se tornou mais íngreme. Entretanto a
sensação térmica melhorou. Na descida o vento não
foi tão forte quanto no cume.
Em torno dos 5000 m
houve uma elevação brusca de temperatura. Agora o
termômetro passou a marcar a -2 ºC. Apesar do
cansaço, sente-se um grande alívio, pois eliminamos
o risco de hipotermia. O objetivo agora é água e
comida.
Na imagem, as ruínas de uma cidade Inca
localizada na base do vulcão.
Foram 3 horas de
descida. Na base, em um pequeno acampamento, fomos
cumprimentados por dois argentinos que provavelmente
vão tentar no dia seguinte. Eu, desidratado, com
febre, com dor de cabeça, mas acima de tudo
realizado e feliz.
Na foto, a montanha no dia da
ascensão, durante o retorno a San Pedro.